Matheus Reis: "O meu coração é de Leão"
12 Fev, 2026
Entrevista de despedida do jogador que venceu seis troféus pelo Sporting CP
Na hora da despedida, em entrevista ao Jornal Sporting e à Sporting TV, Matheus Reis lembrou os seis títulos conquistados (três Ligas, uma Taça de Portugal, uma Supertaça e uma Taça da Liga) e os 222 jogos realizados de Leão ao peito. Em cinco anos ao serviço do Sporting Clube de Portugal, foi muito feliz e só tem um desejo para o futuro: "Gratidão eterna e que o Clube possa continuar vencedor".
Acreditamos que o capítulo ‘Sporting CP’ não vai ser totalmente fechado, uma vez que vai continuar a torcer pelo Clube. É assim?
Exactamente. Acho que [esta] é a entrevista para a qual fiquei mais nervoso na vida. Felicidade é o sentimento que resume estes cinco anos. Muitas conquistas, muitas batalhas, o dia-a-dia. Acredito muito em Deus e sempre que chego na Academia e entro em campo, entro com o pé direito e peço a Deus para vencer aqui, no Sporting CP. Todos os dias peço para ser um vencedor e acredito que saio daqui um vencedor. Não só pelas conquistas e troféus, mas pelas amizades, companheirismo e histórias. Por tudo.
Já tem saudades do que viveu diariamente no Sporting CP?
Sim. Não gosto de despedidas e tenho percebido que é a última vez que vou fazer certas coisas, mas quando temos o sentimento de dever cumprido tudo se torna mais fácil. Lutei por tudo o que podia pelo Clube, saio de cabeça erguida e pela porta da frente. Para um jogador, isso é o mais importante.
"Saio de cabeça erguida e pela porta da frente"
Já disse que o Sporting CP é como a extensão da sua família, o que diz tudo sobre a importância do Clube para si e para os seus…
A nossa família sente muito o Clube. Sou muito profissional, mas por vezes também sou adepto. É por este clube que luto e batalho. Quero que o Sporting CP saia vencedor e em casa sofremos muito pelo Sporting CP, tanto aqui como no Brasil. Estou a sair, mas o sofrimento vai continuar o mesmo. Vou continuar a apoiar, a assistir todos os jogos e sempre a acompanhar. É esse sentimento que fica. (…) Jamais imaginava que teria esta união que tenho aqui. Todos os jogadores que vão embora sentem falta deste sentimento de família, de ser muito bem cuidado por todos e respeitado. Nos jogos fora da UEFA Champions League, por exemplo, ter a nossa família connosco é inexplicável. Não há motivação maior. Todo o cuidado dos funcionários, tudo. É o que faz deste clube diferente. Não é à toa que os resultados aparecem dentro de campo.
Quem ficou mais apreensivo com esta saída? O Matheus ou os outros membros da família?
Quando disse à Jack [mulher] e ao Teteu [filho], foi uma emoção e um choro, mas nunca de tristeza. Sentimos que a nossa marca vai continuar aqui. Vamos continuar a torcer e lutar pelo Clube. É um sentimento de felicidade e de dever cumprido.

É um jogador muito querido pelos adeptos e sempre demonstrou tempo para estar com eles. Porquê?
É o mínimo que podemos fazer enquanto profissionais. É a minha forma de retribuir o carinho. Quando saio da Academia e vejo o pessoal à nossa espera, não consigo passar e não os cumprimentar e tirar fotografias. Faço-o com o maior prazer. Por vezes, respondo a algumas das muitas mensagens nas redes sociais e sou grato a todos. Quando sobra alguma camisola, tento oferecer a algum adepto, mas nunca vai ser uma retribuição à altura de tudo o que eles fazem pelo Clube e por nós, jogadores.
Valeu a pena tudo o que deu ao longo destes cinco anos?
Sim. Quando saímos à rua e os adeptos falam comigo, sinto muito isso, assim como nos títulos. Não há prazer maior do que ver os adeptos a festejar. Sempre que entro em campo, luto por mim, mas também como um adepto. Dou o máximo com raça, vontade e dedicação. Foi muita luta, sacrifício e suor.
Utilizou sempre a camisola 2 e fez 222 jogos. Parecia destinado…
Não tinha pensado nisso, mas é verdade.
Tornou-se o terceiro estrangeiro com mais jogos pelo Sporting CP, apenas atrás de Sebastián Coates e Anderson Polga. Passou a ser, também, o Leão com mais jogos de sempre na UEFA Champions League (28). O que é que estes factos dizem sobre estes anos?
É um legado espectacular. Tento passá-lo aos jovens que trabalham connosco no dia-a-dia. É um dos papéis dos mais velhos, passar esta mística que criámos nestes últimos cinco anos. É entrega, profissionalismo. Ser Campeão pelo Sporting CP é um sentimento inexplicável e tento explicar que o trabalho duro, a dedicação e o sacrifício vão ser recompensados. É essa imagem que deixo no Clube.
Chegou no início de 2021 numa das fases mais complicadas da sua carreira, quando se escreveu muito sobre si. O Sporting CP ter acreditado em si foi o melhor que podia ter acontecido?
Foi um momento muito difícil para mim. Tentaram passar uma imagem que não era a minha e não me quis defender. A minha resposta tinha de ser dentro de campo, como sempre foi. Claro que causou muitas dúvidas, mas demonstrei dia após dia o meu trabalho, a minha dedicação, o meu profissionalismo e a pessoa que sou.
Essa atitude teve frutos no Sporting CP, porque ajudou a equipa a conquistar, poucos meses depois, o título de 2020/2021.
Foi um ano espectacular, o do meu primeiro título. Cheguei a meio da temporada sem jogar, a treinar à parte. Na altura, o Rúben Amorim e toda a estrutura deram-me apoio e confiança. Assim que cheguei, senti essa energia. Conquistar títulos é mais do que jogar bem, há que ter a aura de vencedor e tínhamos.
Essa aura foi o que fez com que conquistasse todos os títulos que conquistou ao longo dos anos?
Com certeza. Nunca baixámos a guarda. Trabalhámos todos os dias, mesmo depois das derrotas mais duras. Temos de nos levantar e reerguer porque há jogo logo a seguir. Nunca nos empolgámos com as vitórias nem caímos com as derrotas. É isso que faz de uma equipa e de um jogador vencedores.
Reforçar o Sporting CP foi uma das melhores decisões da sua vida?
Demais. Na minha carreira, o Sporting CP foi o grande auge até agora. Não sei o que vai acontecer daqui para a frente, mas foi aqui que mais conquistei títulos, mais joguei, me estreei nas competições europeias, cheguei onde qualquer miúdo quer chegar. O Sporting CP é tudo para mim.
"Na minha carreira, o Sporting CP foi o grande auge"
Ao longo destes cinco anos, houve muitos jogos especiais. Quais são aqueles que mais se lembra?
O primeiro, com o Gil Vicente FC. Estava cá há uma semana ou uma semana e meia. Estávamos a perder 1-0 e o Rúben Amorim chamou-me para entrar. Estava preparado e acreditei. Tinha a certeza de que íamos virar esse jogo de alguma forma ou outra. Entrei bem, a equipa pressionou e o Seba [Coates] fez aqueles dois golos históricos, foi lindo. A minha estreia ficou marcada na mente de todos os adeptos e naquele ano, que teve vários com golos nos últimos minutos. Também me lembro do jogo contra o SC Braga, com um jogador a menos, em que o Matheus Nunes fez aquele golo com passe do Pedro Porro. Ficam também as vitórias contra os rivais, que marcam muito, e também contra os grandes da Europa. Contra o Manchester City FC, contra o Borussia Dortmund, Paris Saint-Germain FC, Tottenham Hotspur FC, a eliminatória com o Arsenal FC… E ainda as vitórias de final de campeonato que nos deram os títulos. São as mais marcantes.
As três viagens que fez até ao Marquês de Pombal surpreenderam?
Muito. Na primeira, tinha a dúvida de como seria por causa da pandemia de COVID-19, mas foi surreal. Nunca tinha visto nada assim na minha vida. Foi uma pena não ter palco, chegámos lá e demos a volta, mas foi uma loucura depois de 19 anos. Foi incrível, mas tínhamos o sonho de ser Campeões sem COVID-19 e em Alvalade. A segunda foi num jantar aqui em Alvalade e a festa conseguiu superar a primeira. A terceira, o Bicampeonato, no nosso estádio, com os nossos adeptos e a minha família que veio do Brasil, foi melhor ainda. Superou tudo e não tenho dúvidas de que vamos conquistar o Tricampeonato e que vai ser ainda melhor.
"Não tenho dúvidas de que vamos conquistar o Tricampeonato"
Pelo que sente no balneário, acredita que a equipa tem a fome necessária para vencer o Tricampeonato?
Acredito muito, muito, muito. Com fé e trabalho, vamos conquistar o Tricampeonato. (…) Atitude nunca pode faltar. Podemos falhar um passe, um lançamento, é normal, mas nunca podemos deixar de correr e lutar. Temos demonstrado que lutamos até ao final nestes últimos jogos. Este grupo já tinha isso o facto de continuar assim vai-nos trazer o Tricampeonato.
Como é passar os valores do Sporting CP aos mais jovens?
Não é fácil, mas aprendi muito com os nossos capitães que estavam cá quando cheguei. Foi uma aprendizagem muito grande olhar para o Seba, que conquistou tudo aqui, e ver a humildade e o trabalho. O [Luís] Netinho, que continua connosco [na equipa técnica], também tem a humildade de continuar a trabalhar e a querer a nossa evolução. Levei isso comigo e chegou a minha vez. É uma responsabilidade tremenda entrar em campo e ser capitão cheio de miúdos em campo a ter de ganhar o jogo. Não tenho de me preocupar só em fazer um grande jogo, mas também com eles para dar uma grande resposta aos adeptos. É uma responsabilidade gigantesca, até no dia-a-dia, mas acredito que fui sempre bem-sucedido. Os miúdos estão no caminho certo e vão dar muitas alegrias e conquistas aos adeptos.
Como define este grupo, agora que está de saída?
É um grupo de guerreiros, de Leões. Acreditam e batalham. Vão conquistar coisas grandes aqui.
Foi sempre um jogador conhecido pela entrega e garra. Faz parte da sua personalidade?
Um Leão é assim mesmo, não dá um passo atrás. Sem rendição ou retirada. Não existe amanhã, é vencer ou morrer. Esse tem de ser o sentimento. Quando temos um resultado que não esperamos, é um luto e uma tristeza na Academia no dia seguinte e esse sentimento é horrível. Por isso, lutamos por cada jogo como se fosse o último. Digo até à minha esposa que o meu coração é de Leão. Quando entro em campo, transformo-me num Leão.
O que representou ter sido capitão do Sporting CP?
Foi único. A primeira vez foi na UEFA Champions League, num momento difícil em que tínhamos vários jogadores lesionados e muitos jogos. Quando recebi a notícia, foi incrível. Olhei para trás e pensei em tudo o que passei, tudo o que lutei para chegar a este momento. Estava preparado para aquilo, sabia que algum dia podia chegar. Sempre tive a humildade de ouvir e aprender muito com os nossos capitães. Dei o meu melhor, tanto dentro como fora de campo e foi uma honra. Foi a cereja no topo do bolo.
Foi sempre bem apoiado e protegido pela estrutura e pelo universo Sportinguista, mesmo nos momentos mais complicados?
Sim e motiva-nos ainda mais a sermos melhores. Dá mais vontade de crescer, evoluir e provar o meu valor. Os momentos mais difíceis fortalecem. Ninguém quer passar por eles, mas podem-nos tornar melhores.

Sente que evoluiu desde que chegou ao Sporting CP, em 2021?
Muito, nem há comparação. Quando cheguei, sabia que, para vencer aqui, seria muito difícil e tive de evoluir em tudo. Condição física, mental, espiritual, tudo. O meu trabalho gerou estes frutos maravilhosos.
Tem pensado muito em tudo o que viveu nestes cinco anos?
Parece que foi muito mais. Ter conquistado três títulos nacionais em cinco anos é muito bom e penso muito nesses momentos de festa. A despedida é difícil, mas fica mais fácil ao perceber que o meu dever está cumprido. Deixa-me mais tranquilo.
Do que vai ter mais saudade?
Há pouco, estava a conversar com quem trabalha na portaria da Academia. Estavam a dizer para não me ir embora sem me despedir deles. Sentimos esse carinho de todos, até porque sempre tentei ser assim com todos também. Há uma amizade que fica para além do futebol. A nossa carreira é muito curta e passa muito rápida, mas as amizades ficam. Vou ter saudades dos nossos jantares de jogadores, dos nossos momentos no balneário. É tudo muito bom.
Vai ficar ligado à história do Clube. Tem noção disso?
Ainda não consigo ter essa dimensão, mas fico emocionado por, no futuro, trazer os meus filhos aqui e dizer que fiz parte desta equipa vitoriosa e que conquistei estes troféus. Deixa-me feliz. A história foi escrita e vai ser eterna.
Já disse que vai continuar a ser um adepto. Vai sofrer ainda mais à distância?
Quando não jogo, nem consigo dormir em casa e tenho dores de cabeça devido à tensão. Prefiro muito mais estar dentro de campo, fora fico muito nervoso. Em casa, o Teteu chora quando perdemos. Todos sentimos muito isso e vamos continuar a sentir da mesma forma.
O que representa o Sporting CP para si e para a sua família?
É a extensão da minha família e da minha pessoa. Já todos perceberam como sou, sempre sincero e verdadeiro na luta pelos objectivos do Clube e pelo bem da minha família. O Sporting CP representa tudo na minha vida.
"O Sporting CP representa tudo na minha vida"
Tem alguma mensagem para os Sportinguistas?
Quando cheguei, vinha de um momento muito difícil e muitos não acreditavam no meu potencial. Lutei muito para provar o meu valor e as conquistas foram o reflexo disso, mas o legado que deixo é essa vontade de vencer e defender o Clube. Todos os jogadores que vierem têm de ter isso, têm de querer o melhor para o Clube. Espero que esta fase tão boa que vivi aqui não acabe. Que nunca percamos esta aura que se criou nestes últimos anos. Agradeço por todas as mensagens, todo o carinho. Lutei, entreguei-me e dei o meu máximo. Fiz tudo o que podia fazer pelo Clube e saio de cabeça erguida. Gratidão eterna e que o Clube possa continuar vencedor.
O que é que diria a si próprio se pudesse falar com a sua versão de 2021?
Nem nos meus melhores sonhos pensaria que podia sair daqui com tantas conquistas e tanto carinho dos adeptos. Diria para trabalhar e acreditar porque a recompensa virá.
O título do livro que fala sobre estes cinco anos é ‘Missão Cumprida’?
‘Missão Cumprida’. Saio daqui, mas o meu coração é sempre de Leão.
TÍTULOS
Liga 2020/2021
“Foi o campeonato da superação e do acreditar.”
Supertaça 2021
“Continuidade. Vínhamos de um bom momento e continuámos.”
Taça da Liga 2021/2022
“Sentimento único. Foi o meu primeiro título como titular e virámos o jogo num dérbi.”
Liga 2023/2024
“Diferente do de 2020/2021. Mostrou que não foi sorte nem ‘estrelinha’.”
Liga 2024/2025
“O Bicampeonato reforçou isso mesmo. Mostrou que o Sporting CP está noutro momento e vai continuar a ser vitorioso.”
Taça de Portugal 2024/2025
“Era a que faltava. Mais uma vez num dérbi, com uma aura diferente. Conseguimos virar o jogo com a minha família no estádio e foi muito especial.”

MEMÓRIAS
Apresentação
“Felicidade tremenda.”
Estreia
“A minha hora chegou e estava preparado.”
Primeiro golo
“A minha família estava no estádio e poder proporcionar isso foi espectacular.”
Primeira vez que foi capitão
“Muita responsabilidade, mas preparado.”
Estreia na UEFA Champions League
“O resultado não foi bom, mas emocionei-me. É um momento com que sonhamos desde miúdos. Aprendemos muito com aquele jogo e as nossas exibições evoluíram depois.”
Vencer grandes equipas europeias
“Sentimento incrível de perceber que o Sporting CP é, realmente, tão grande como os maiores da Europa.”
Tornar-se o jogador do Sporting CP com mais jogos na UEFA Champions League
“É único estar num clube gigantesco e atingir esta marca na competição onde estão os melhores.”
Ser Campeão em Alvalade com os adeptos presentes
“Para além disso, foi o Bicampeonato. Com adeptos e família no estádio. Fico arrepiado, é inexplicável. Foi especial e valorizou ainda mais o meu percurso aqui no Sporting CP.”