Entre a tradição e o sonho
23 maio, 2026
Sporting CP e SCU Torreense encontram-se no Jamor este domingo (17h15)
Este domingo, às 17h15, a bola volta a rolar no mítico tapete verde do Estádio Nacional do Jamor. Frente a frente estarão equipas com história, percursos e palmarés distintos, mas unidas pela mesma ambição. De um lado, um Sporting Clube de Portugal habituado às grandes decisões e à exigência de vencer; do outro, um SCU Torreense que, a viver uma das temporadas mais especiais da sua existência, sonha eternizá-la com um inédito troféu.
No velhinho Estádio Manuel Marques, erguido há mais de 100 anos, mora um dos projectos mais singulares do futebol português actual. Com as suas bancadas como testemunhas, o SCU Torreense construiu um plantel multicultural, composto por jogadores de 12 nacionalidades, e afirmou-se como uma equipa consistente e com personalidade.
O crescimento tem sido evidente desde que Luís Tralhão assumiu o comando da equipa, a 5 de Janeiro deste ano, quando o conjunto azul-grená ocupava o 8.º lugar da classificação da Liga Portugal 2. Paralelamente à caminhada marcante na prova rainha, o SCU Torreense protagonizou uma forte recuperação no campeonato e, após o desfecho da Liga Portugal 2, continua na luta pela subida ao escalão máximo do futebol nacional.
Esta quarta-feira, os torreenses empataram com o Casa Pia AC (0-0), na primeira mão do play-off de promoção e, apesar do empate sem golos, a formação de Torres Vedras voltou a mostrar que está pronta para outros palcos. Perante o seu público, o terceiro classificado da Liga Portugal 2 assumiu grande parte da iniciativa do encontro, terminou com mais posse de bola (59%-41%) e somou mais do dobro dos remates do adversário (14 contra 6), ainda que o número de ocasiões flagrantes tenha sido idêntico para ambos os lados (2).
Além disso, a equipa de Luís Tralhão chega à final num dos melhores momentos da temporada, tanto do ponto de vista competitivo como anímico, com apenas uma derrota nos últimos 12 encontros. O percurso até ao Jamor confirma precisamente essa consistência. A caminhada começou com um triunfo fora frente ao ADC Correlhã (1-3), seguindo-se uma eliminatória particularmente equilibrada diante da UD Oliveirense, resolvida apenas nas grandes penalidades (5-4, após 1-1 no tempo regulamentar).
Depois, os azuis-grená superaram o Lusitânia de Lourosa FC (0-1), o primodivisionário Casa Pia AC (1-2) e a UD Leiria (3-1), antes da eliminatória das meias-finais frente ao AD Fafe. Com o empate na primeira mão na bagagem (1-1), o SCU Torreense regressou a casa e venceu por 2-0, carimbando uma muito celebrada segunda presença na final da Taça de Portugal.
A primeira, essa, aconteceu na época da sua estreia na I Divisão, na distante temporada de 1955/1956. Então, o emblema de Torres Vedras alcançou a final da Taça de Portugal, discutiu o troféu com o FC Porto e acabou derrotado por 2-0.
Entre as principais figuras do plantel surge Stopira, experiente defesa-central cabo-verdiano de 38 anos e uma das referências da equipa. Recentemente convocado para a selecção de Cabo Verde, tornar-se-á no primeiro jogador da história do SCU Torreense a marcar presença num Campeonato do Mundo. No plano ofensivo, por sua vez, o protagonismo vai para Musa Drammeh e Kévin Zohi, que, com nove golos apontados ao longo da temporada, se assumem como os melhores marcadores da equipa.

Apesar de Sporting CP e SCU Torreense não se cruzarem oficialmente há 34 anos, em 2025/2026 os torreenses mediram forças com a equipa B verde e branca na Liga Portugal 2 e os dois encontros ficaram marcados por desfechos dramáticos. Na jornada inaugural do campeonato, os Leões de João Gião venceram em Torres Vedras graças a um golo solitário de Flávio Gonçalves mesmo ao cair do pano.
Já na segunda volta, no Estádio Aurélio Pereira, o conjunto azul-grená acabou por inverter o desfecho e venceu por 1-2, com o golo decisivo a surgir também aos 89 minutos. Então, Dany Jean inaugurou o marcador aos 43’, Lucas Anjos empatou aos 56’ e Musa Drammeh, de grande penalidade, carimbou os três pontos para os visitantes já perto do apito final.
Noutros capítulos da sua história, porém, a formação de Torres Vedras jogou de forma regular frente à equipa principal de futebol do Sporting Clube de Portugal. São mais de 70 anos de história conjunta e agora, à espreita do mais emblemático encontro entre os dois emblemas, Luís Tralhão deverá apostar no mesmo onze que iniciou o encontro frente ao Casa Pia AC: Lucas Paes, David Bruno, Stopira, Mohamed Ali-Diadié, Javi Vázquez, Guilherme Liberato, Léo Azevedo, Alejandro Alfaro, Luis Quintero, Musa Drammeh e Dany Jean.
Pela frente terá agora um Sporting CP ambicioso, que chega ao Jamor depois de assegurar o segundo lugar do campeonato e de fechar a Liga Portugal com uma vitória categórica frente ao Gil Vicente FC, por 3-0. Na terceira presença consecutiva dos verdes e brancos no Estádio Nacional, Rui Borges e companhia, actuais detentores do troféu, procuram somar a 19.ª Taça de Portugal ao Museu Sporting e fechar com um título uma temporada de altos e baixos.

Nesta que será a 30.ª presença dos Leões no palco maior da prova rainha, cenário de finais inesquecíveis, outras de má memória e uma eternamente trágica, o percurso até à final ficou marcado por eliminatórias exigentes e por várias decisões ‘para lá’ do tempo regulamentar. A caminhada começou em Outubro, em Paços de Ferreira, onde o Sporting CP venceu por 2-3 após prolongamento, e seguiu-se um triunfo caseiro mais tranquilo frente ao AC Marinhense (3-0).
Nos quartos-de-final, os Leões voltaram a sofrer para eliminar o CD Santa Clara, após tempo extra nos Açores (2-3), e o AFS Futebol SAD, que venceram pelo mesmo resultado no Estádio José Alvalade, novamente após prolongamento. Já nas meias-finais, o Sporting CP afastou o FC Porto graças a uma vitória por 1-0 em casa e a um empate sem golos no Estádio do Dragão.
Para a final, Rui Borges não deverá contar com os lesionados Zeno Debast, João Simões, Iván Fresneda e Fotis Ioannidis, mas a experiência em jogos desta dimensão pode assumir-se como um dos trunfos da equipa verde e branca. O SCU Torreense chega naturalmente impulsionado pelo entusiasmo de uma época inesquecível, enquanto o Sporting CP procura confirmar o estatuto num dos palcos mais emblemáticos do futebol nacional, no adeus de Hidemasa Morita e Geovany Quenda aos adeptos.