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Foto João Pedro Morais

"Já ganhámos tudo, mas sentimos que falta algo aqui dentro, ainda"

Por Sporting CP
10 Jun, 2026

Mohamed Ali abordou temporada histórica em entrevista

A equipa de andebol do Sporting CP não soma títulos, multiplica-os: 2025/2026 acabou com ‘tri-triplete’. Isto é o mesmo que dizer que pela terceira época seguida os Leões voltaram a vencer tudo (Supertaça, Campeonato e Taça) em Portugal e desta vez somando por vitórias todos os jogos. Mais, são já dez as conquistas consecutivas que têm rumado ao Museu Sporting, um feito inédito a nível nacional na modalidade, mas apesar de tudo isso os comandados de Ricardo Costa mantêm-se insaciáveis.

“Foi quase perfeita, porque toda a equipa queria jogar a final-four da EHF Champions League”, apontou o guarda-redes Mohamed Ali em entrevista ao site oficial do Clube para fazer o derradeiro balanço de mais uma temporada histórica. “Esteve ainda mais perto do que antes”, considerou, mas é sem arrependimentos que revisita a eliminação na Dinamarca.

Quanto à hegemonia consolidada em Portugal, o internacional egípcio de 34 anos não tem dúvidas de que “continuar a ganhar é sempre mais difícil”, e esta final da Taça de Portugal comprovou-o. Nesta primeira parte (de duas) da entrevista, Mohamed Ali debruça-se sobre os segredos do sucesso em 2025/2026, partindo da reviravolta conseguida no prolongamento sobre o SL Benfica até à exigência constante de Ricardo Costa, um “treinador que não deixa relaxar”, sem esquecer ainda a fantástica simbiose criada com os Sportinguistas no Pavilhão João Rocha.

A Taça de Portugal recém-conquistada completa mais um pleno de troféus e aumenta a hegemonia da equipa na modalidade. Tinham esses objectivos bem claros desde o início, era desta forma que 2025/2026 tinha de acabar?
Sabíamos que ganhando íamos fazer História em Portugal e isso é muito importante para nós e para o Clube. É onde esta equipa merece estar.

Além de mais um troféu - a quinta Taça de Portugal seguida - foi com um dérbi de muita emoção e incerteza que terminaram a época. Sentiram que foi realmente um grande último desafio a esta equipa?
Sim, foi um jogo difícil [39-41 a.p.]. Sabemos que temos mais pressão, porque quando ganhas e queres continuar a ganhar tens sempre essa pressão. Acho que isso, se calhar, foi um problema. Também já não jogávamos há algumas semanas, especialmente jogos decisivos, mas fizemos o mais importante e fomos capazes de conseguir mais um título. Mais um para o Sporting CP e para a nossa equipa.
Para mim, esta época foi incrível, mais difícil do que a anterior, até. Como disse, quando queres continuar a ganhar é sempre mais difícil, mas gosto muito da nossa equipa e da nossa atitude. Estamos sempre unidos. Estamos felizes pelo que fizemos esta época e felicito, também, os nossos adeptos, porque estão sempre connosco, seja onde for.

"Sabíamos que ganhando íamos fazer História em Portugal"
 

E a forma efusiva como todos os presentes em Alcobaça, dentro e fora de campo, festejaram a seguir ao som da buzina disse tudo sobre o significado e a dificuldade desta conquista, mesmo depois de tudo o que já alcançaram?
A emoção foi verdadeira, saiu cá de dentro por parte de todos os jogadores. Sabíamos que não podíamos perder e, por isso, foi incrível. Ser uma equipa é bom, mas ser uma família é melhor.

Depois de uma época tão desgastante, onde é que a equipa conseguiu agarrar-se para virar e resolver uma final que esteve muito perto de cair para o lado do SL Benfica?
No balneário, falamos que estas coisas acontecem no desporto, não interessa se já tínhamos ganho por dez. Estava um título em jogo. Depois, acho que foi uma questão de experiência e confiança da equipa. E, também, porque temos jogadores muito bons a nível individual, como o Martim, Kiko, Salvador, Jan Gurri, Natán... Jogadores que pedem a bola sem medo e isso faz a diferença. Tal como o Füchse Berlin, que quando precisa põe a bola no [Mathias] Gidsel ou, no futebol, passam ao Messi ou Cristiano Ronaldo.

E, no seu caso, entre os postes, como é que o Ali gere os momentos de maior pressão que vive durante um jogo?
Acho que é diferente, porque tenho mais tempo para pensar, enquanto a outra equipa ataca. Eu tento estar tranquilo e gosto de falar para mim. Por exemplo, no contra-ataque do SL Benfica, do [Gabriel] Cavalcanti, eu só dizia para mim: “Tenho de defender, esta não pode entrar”. Um guarda-redes pode fazer 20 defesas e a sua equipa perder ou fazer seis e ganhar. O timing da defesa faz muita diferença.

"Esta época foi incrível, mais difícil do que a anterior"
 

Com tudo terminado em 2025/2026, com que sensações sai desta temporada? Pode dizer-se que foi mais uma a roçar a perfeição.
Para mim, foi quase perfeita, porque toda a equipa queria jogar a final-four [da EHF Champions League]. É o sonho da equipa e do Clube, e a cada ano estamos mais perto. No Egipto temos uma frase que diz que “a terceira [vez] é a tal”. Já ganhámos tudo, mas sentimos que falta algo aqui dentro, ainda. Estamos felizes com todos os títulos nacionais, mas espero que no próximo ano possamos fazer melhor, e melhor é continuar a ganhar troféus em Portugal e jogar a final-four.

Recuando a esse início de Maio, passaram provavelmente do melhor momento da época, o Tricampeonato selado e festejado em casa, para o mais difícil em apenas quatro dias, a eliminação da Champions na Dinamarca. Agora, cerca de um mês depois, como olha para esse momento?
Somos uma equipa profissional e acho que fizemos tudo o que podíamos contra uma equipa como o Aalborg Håndbold, uma das melhores do mundo, com jogadores muito bons. É mais triste quando não fizeste o que devias ou podias, mas acho que nós demos tudo. Não podíamos ter feito nada mais, perdemos por um [37-36 depois do empate a 31 em casa]. 

"Espero que no próximo ano possamos fazer melhor"
 

O facto de terem ficado à porta da final-four já pelo segundo ano seguido torna tudo mais doloroso ou, por outro lado, faz aumentar a convicção de que é possível ultrapassar essa barreira?
Sinto que é possível, porque cada vez estamos mais perto. Contra o HBC Nantes, na época anterior, era difícil e ficou perto, mas não tanto como agora com o Aalborg Håndbold. Esteve ainda mais perto do que antes. No próximo ano vamos fazer tudo para poder jogar a final-four.

Já sabiam o que era conquistar tudo em Portugal, mas desta vez foram ainda mais longe e rubricaram um Campeonato inteiramente com vitórias, 28 em 28 jogos. O que permitiu, esta época, atingir esse patamar de domínio total em todos os jogos?
O Ricardo é um treinador que não te deixa relaxar. Em campo, é muito exigente mesmo, mas isso é bom. Fora, é um amigo para todos. Há muitos treinadores que não conseguem esse equilíbrio. O Ricardo quer que nós joguemos todos os jogos como se estivéssemos a jogar contra o Füchse Berlin ou o Aalborg Håndbold, equipas da EHF Champions League. Isso faz toda a diferença e eu gosto muito dessa mentalidade. 
No ano passado fizemos algo muito bom, mas para continuar a ser uma equipa de topo temos de olhar para as equipas que estão nesse nível, por exemplo, o FC Barcelona, que já ganha o Campeonato há 16 épocas. Ainda agora ganharam a Taça por 37-17 [ao CD Bidasoa], por exemplo.

"Estes anos no Sporting CP são do melhor que já passei na minha vida"
 

Por esse domínio reforçado, vê esta temporada como a confirmação de que faz parte já de uma das melhores equipas de sempre em Portugal, até pelo feito inédito atingido de encadear dez conquistas seguidas?
Estou muito feliz por fazer parte da História. Estes anos no Sporting CP são do melhor que já passei na minha vida. Vou lembrar-me sempre disto e quando tiver filhos também lhes vou contar da História que fizemos e de todos estes títulos. É um orgulho.
E acho que estes anos têm sido mais do que ganhar, porque além disso jogamos bem, um andebol novo e os adeptos amam esta equipa. O Pavilhão João Rocha está muitas vezes cheio e acho que isso é especialmente difícil em Portugal, onde o futebol é a prioridade. Ter tanta gente nos nossos jogos é algo que, se calhar, não acontecia antes.
Um dia, se jogássemos no MEO Arena, porque pelo que me dizem é o maior recinto do país, acredito que podíamos enchê-lo com os nossos adeptos. Gostava de saber se o enchíamos, mas eu acho que sim. Há muita gente que ama o Clube, esta equipa e como jogamos. Eles sabem que lutamos sempre até ao fim, “até morrer”, como eles dizem.

 

Na segunda parte da entrevista, disponível aqui, Mohamed Ali aborda de maneira mais pessoal a sua carreira e os dois anos que leva no Clube, recordando a sua chegada como reforço em 2024 e revelando mais detalhes da sua peculiar ligação - mais antiga - ao Sporting CP. São muitos, também, os elogios ao jovem plantel que encontrou e integra, em especial a André Kristensen, guardião com quem tem uma competição saudável – e muito frutífera – pela baliza.

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