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Foto João Pedro Morais

Mohamed Ali: "Foi a minha melhor época, mas sei que tenho mais para dar"

Por Sporting CP
10 Jun, 2026

Da carreira europeia feita a pulso até à felicidade encontrada de Leão ao peito

Depois do balanço feito sobre a histórica temporada 2025/2026 na primeira parte da entrevista ao Jornal Sporting, na segunda o foco esteve mais no plano pessoal, em Mohamed Ali, na sua carreira e no passo em frente, em termos de protagonismo, dado nesta sua segunda época de Leão ao peito.

Quis sair do Egipto, já consagrado, rumo à Europa para “saber se era verdadeiramente bom ou não” e passou por França e Espanha até chegar ao Sporting CP em 2024. “Estou onde quero”, afirmou o guardião, encantado com o plantel que integra e com o Clube ao qual até já tinha uma ligação mais antiga e peculiar, graças ao futebol… e a Nani.

Entre exibições ‘faraónicas’ nas balizas, Ali já passou a centena de jogos de verde e branco, mas promete “mais e mais” aos Sportinguistas.

Já está no Clube há praticamente dois anos. Os Sportinguistas ainda o surpreendem? Por exemplo, como foi voltar a festejar um título de Campeão em casa?
Estão sempre connosco. Nesse jogo até fizeram aqueles retratos dos jogadores e isso para nós é ‘uau’! Isso diz-nos que esta gente não brinca (risos). Fazem essas coisas por nós, para que sintamos que estão sempre ao nosso lado. Espero que continue assim e acredito nisso. Sabemos que podemos esperar sempre algo novo. Já fizeram uma música para o Salvador e esse tipo de coisas nós, jogadores, sentimo-las e gostamos, claro.

Nos seus primeiros dias de Leão ao peito, alguma vez imaginou que ia viver tudo isto?
Quando entrei no Pavilhão João Rocha, em especial no primeiro jogo da Champions [2024/2025], contra o SPR Wisła Płock, vi todos os adeptos e só pensava: uau! Fiz bem as coisas para chegar aqui, jogar andebol, que é aquilo que eu mais gosto, num ambiente como este, no clube que queria e com estes jogadores e equipa técnica e staff. Lembro-me que foi um momento emocionante.

"Fiz bem as coisas para chegar aqui"
 

E fez um caminho muito longo até chegar aqui, certo?
No Egipto estava a ganhar tudo, jogava na selecção e, por isso, lá toda a gente me perguntava porque é que queria sair [em 2021]. Eu queria saber se era verdadeiramente bom ou não, se sou capaz de chegar a este nível [actual] ou não. E foi difícil encontrar clube na Europa, tinha 28 anos, não era um jovem. Então, fui para a II Divisão de França [Angers SCO], assumi o risco e fui um dos melhores guarda-redes do campeonato, mas até Julho não tinha equipa.
Com alguma sorte, o adjunto da minha selecção foi treinar uma equipa espanhola, do principal escalão, o CDE Sinfín, e disse-me: “Ali, quero levar-te, mas sabes que não há muito dinheiro”. Mas eu não vim para a Europa para ganhar dinheiro, senão podia ter ficado no meu país. Fui e cheguei a estar nomeado para melhor guarda-redes da liga junto ao Pérez de Vargas! Nessa altura, ele era o melhor do mundo, por isso para mim foi incrível.
Depois [em 2023/2024], fui para o CB Ciudad de Logroño, uma equipa já de zona alta da tabela, e começámos por jogar a Supertaça Ibérica. Eu joguei contra o FC Porto [na meia-final], acho que joguei bem, e o meu colega jogou contra o Sporting CP [no jogo de terceiro e quarto lugar]. Uns meses depois, o meu agente disse que podia haver algo interessante com o Sporting CP e eu só disse: assino. Disse-lhe para tratar do contrato porque para mim não havia problemas. Eu queria muito jogar aqui e isso chega. Quando vim aqui assinar, fiz a visita ao Museu e ao Estádio e senti-me realmente feliz. Realizado, até. Estou onde quero, pensei. 

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Nessa altura, o que o fazia ver com bons olhos para essa oportunidade de representar o Sporting CP?
No ano anterior [à vinda], já acompanhava os jogos do Sporting CP, porque era uma equipa que estava a crescer e a começar a ganhar. Toda a gente falava do Sporting CP como uma equipa a ter em atenção e que estava no bom caminho. Neste momento, somos uma das oito melhores equipas do mundo, e por dois anos seguidos já.
Além disso, o Sporting CP é um clube muito famoso no Egipto. Acho que aqui, em Portugal, não fazem ideia (risos). Na rua vejo sempre pessoas com a camisola do Cristiano Ronaldo no Sporting CP e também houve um jogador famoso do Zamalek SC, o Shikabala, que é uma estrela lá e jogou aqui. O Rami Rabia também, mas não jogou muito aqui. Eu, desde muito novo, comecei a gostar do Sporting CP pelo futebol, também, e pelo Nani.

Ganhou de tudo nestas duas épocas de verde e branco, mas ter o Nani na bancada a assistir a um jogo no Pavilhão João Rocha é uma das coisas que ainda lhe falta concretizar aqui?
Sim, isso sim! Ele, agora, voltou a jogar [no Cazaquistão]. Gostaria muito que ele viesse ver-nos ao Pavilhão, um dia. Gosto muito do Nani desde que sou pequeno e espero que possa vir a um jogo nosso. Quando corria pelo corredor, puxava para dentro e chutava... Adorava! A parte das cambalhotas é que nunca tentei (risos).

"Somos uma das oito melhores equipas do mundo"
 

Quando chega ao Sporting CP encontra uma equipa em afirmação, vinda de um primeiro ‘triplete’ em 2023/2024, mas muito jovem também. Neste momento, aliás, o Ali é o mais velho do plantel, tendo mais dez anos do que o capitão Salvador, por exemplo.
É o nosso capitão e eu gosto muito da sua mentalidade e das suas palavras antes dos jogos. Ele sabe o que está a fazer e não é fácil ser capitão, e é jovem ainda, mas já joga no Sporting CP desde muito novo. Eu já tive muitos capitães, mas ser capitão com 24 anos não é para todos. Se algum jogador está mais triste ou chateado, de mal humor, o Salvador está sempre lá. Isso é algo que eu gosto muito nele.
O Kiko e o Martim treinam como jogam. Têm uma mentalidade incrível. Treinam sempre no máximo. Não baixam a força, a intensidade e agressividade. 

E foi fácil entrar nessa nova realidade, quer no que toca à integração na equipa, quer à adaptação à ideia de jogo?
Acho que este ano já me mostrei mais adaptado que na primeira época. O primeiro ano é sempre mais difícil e eu estava habituado a equipas que defendiam de forma diferente. Agora, já sei como o Salvador ou o Edy vão defender. E acho que isso vai continuar a ser uma vantagem, porque os rivais devem fazer mais mudanças e nós já temos um sistema bem montado. Fisicamente também me senti melhor, treinei mais, até porque no ano passado tive lesões. Tive mais tempo para trabalhar com o [Ricardo] Candeias, que foi guarda-redes, e com o André [Kristensen].

"O Sporting CP é um clube muito famoso no Egipto"
 

E como é competir pelo lugar com o André Kristensen?
Temos muito boa relação. É, talvez, a primeira vez em que tenho um colega guarda-redes com tanta diferença de idade, quase dez anos. Tenho mais experiência e sinto que ele me ouve e tem confiança em mim.
Ambos queremos ganhar e jogar, falamos disso cara-a-cara, e quando tens essa concorrência saudável é a melhor coisa do mundo. Ambos sabemos que nenhum vai jogar a época inteira e é por tudo isso que gosto da minha relação com ele. A posição de guarda-redes é muito específica e sensível, porque só pode jogar um, mas tudo resulta quando a relação é boa e o treinador sabe fazer bem a gestão. 
O André é muito boa pessoa e espero que continuemos juntos, porque podemos continuar a dar força à equipa. Por exemplo, acho que fizemos grandes jogos nos 'quartos' da Champions. Quando uma equipa tem dois guarda-redes de nível A faz a diferença, porque se nalgum momento um não estiver bem sabemos que o outro vai aparecer.

Se tivesse de escolher uma característica do Kristensen que gostasse de ter, qual seria? E ao contrário, qual das suas lhe acrescentaria?
[Pára para pensar] Ele é muito rápido a reagir. Para mim, isso não é tão fácil, porque sou maior e, por isso, gosto de jogar mais com as distâncias. Mas isso faz parte da minha experiência. Ele só pode ganhar isso com tempo e a jogar.
Eu diria que lhe daria a minha energia na baliza. Por exemplo, dependendo da forma como festejas [uma defesa], a adrenalina sobe e isso pode ajudar-te a estar mais activo. Sei que os nórdicos são mais tranquilos, mas o Orri [Þorkelsson] não é frio, por exemplo (risos). Acho que o André, tecnicamente, é muito bom e a cada ano está muito melhor.

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Agora, já superou os 100 jogos (104) no Sporting CP e renovou contrato em Março. Entre os postes, sente que deu um claro passo em frente no que toca ao seu contributo para a equipa?
Esta foi a minha melhor época, mas sei que tenho mais para dar aqui. Acho que no próximo ano posso dar mais, porque estou mais estável e conheço tudo cada vez melhor. Por isso, só penso em voltar, aqui, bem fisicamente para a pré-época, trabalhar muito e dar algo mais à equipa.

O que ainda quer atingir de Leão ao peito?
Posso dizer a final-four, claro, porque todos queremos fazer algo diferente na Champions. Seria a maior coisa já feita no andebol do Sporting CP.

"Este ano já me mostrei mais adaptado do que na primeira época"
 

Fechada mais uma temporada histórica, que palavras deixa aos Sportinguistas?
Espero que estejam felizes pelo que fizemos esta época e que se mantenham ao nosso lado. No próximo ano queremos fazer mais e mais por eles, porque o merecem.