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Foto João Pedro Morais

Henrique Magalhães: "Foram os melhores anos da minha carreira"

Por Sporting CP
27 Jun, 2026

A retrospectiva final das sete temporadas de Leão ao peito do hoquista

Chegou ao Sporting CP em 2017 e, apesar do seu perfil discreto, tornou-se de imediato uma das peças do Leão que começou a devorar títulos para terminar longos ‘jejuns’, quer a nível nacional, quer europeu. Essa ambição chegara para ficar e Henrique Magalhães acabou por vencer um pouco de tudo com a listada verde e branca nos anos vindouros.

Depois do balanço feito à sua temporada de despedida na primeira parte da entrevista, na segunda o experiente hoquista revisita o seu trajecto e as conquistas mais marcantes, explica as ‘sementes’ do sucesso plantadas no balneário desde o início e ensaia o seu adeus final aos adeptos e ao Pavilhão João Rocha, entre reflexões sobre o tempo passado e (bem) vivido aqui. “É um clube muito grande, faz-nos sentir isso desde o início e fazer parte dessa História é um orgulho enorme”, frisou.

A do hóquei verde e branco, é uma história de sucesso que continua a dar frutos e até aqui não se entende sem a solidez e equilíbrio - golos e assistências também - oferecidos em pista por Henrique Magalhães, uma presença constante. Sai como o quinto hoquista com mais jogos (304) pelo Clube e afirma que gostaria de ser recordado, simplesmente, “como alguém que deu tudo pelo Sporting CP”.

Realçou o carácter que se conseguiu forjar no grupo da época transacta, apesar das mudanças e do arranque competitivo extraordinariamente exigente. Esse espírito de equipa pode dizer-se que tem sido algo transversal aos vários plantéis de que fez parte no Sporting CP, desde o início?
Acho que sim e nesse ponto gostava de realçar um atleta que fez muito a diferença no espírito que se incutiu no hóquei do Sporting CP, falo do Girão. Eu já tinha estado com ele na AD Valongo, sabia da sua personalidade forte, da mentalidade vencedora e da sua raça e quando cheguei ao Sporting CP ele mantinha-se da mesma maneira. Eu e ele somos muito diferentes, mas se houve algo que quisemos manter da geração anterior para esta, nova, foi precisamente isso: a mentalidade vencedora, acima de tudo, e criar um balneário muito bom. São coisas que nunca se podem perder. 

Agora, quando olha para trás tem a noção de que faz parte do grupo que finalmente voltou a mostrar que o Sporting CP tinha chegado outra vez para ficar na modalidade?
É isso. Acho que faço parte disso, somos parte da História do Sporting CP. Há muitos anos mesmo que o Clube não conseguia ter equipas de hóquei tão vencedoras.

“Mentalidade vencedora e um balneário muito bom (…) são coisas que nunca se podem perder”

 

E quão marcantes foram os títulos conseguidos na sua primeira passagem? O Campeonato na primeira época (2017/2018) e a Liga dos Campeões na seguinte (2018/2019), ambos largas décadas depois das anteriores conquistas.
Sim, além disso, são dois títulos ganhos em casa, ou seja, estás com os teus adeptos, os jogos acabam e a festa é incrível. O Clube tinha de ganhar e essa pressão só a sente quem está neste tipo de equipas. O libertar do “ganhámos” é uma sensação incrível, assim como as semanas seguintes em que parece que és o dono do mundo ou que estás nas nuvens. São dois títulos muito marcantes.

Depois, sai para a UD Oliveirense por duas temporadas e regressa em 2021. O que o fez voltar?
Quando saí foi por uma questão pessoal. Eu e a minha mulher tínhamos acabado de ser pais, a gravidez não foi muito boa e esses dois anos que estive cá foram o da gravidez e o primeiro ano de vida da Benedita, que nunca é fácil, não é? Passámos dois anos complicados, porque estávamos sem ajudas numa cidade diferente [em Lisboa], pais pela primeira vez... Foi uma mudança muito grande e, de facto, quando surge a oportunidade de voltar a casa acreditamos que, nessa fase, era importante. Não foi por uma questão profissional, porque tínhamos ganho títulos e sabia que estava num clube que ia lutar sempre e ganhar mais títulos, de certeza absoluta. Acho que naquela altura tinha mesmo de ser.

“Estou muito satisfeito por ter voltado [em 2021] (…) estes cinco anos são prova disso”

 

Então, quando saiu a porta ficou desde logo entreaberta para regressar?
Claro. Quando saí disse que um dia gostava muito de voltar, não sabia se ia ser possível, dependia de muitas coisas, mas sabia que queria. Quando surgiu a oportunidade, a Benedita tinha três anos e dissemos: vamos voltar. Mal surgiu a oportunidade, agarrei-a e estou muito satisfeito por ter voltado. Acho que estes cinco anos são prova disso.

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Agora, deixa o Sporting CP como o quinto hoquista com mais jogos disputados (304). Alguma vez imaginou que teria esta ligação tão duradoura?
Não sabia [que era o quinto com mais jogos]. É assim, eu imaginava, sempre acreditei que podia ficar aqui muitos anos, sobretudo depois de começar tão bem. Naqueles primeiros dois anos tinha a sensação de que estava no clube e com as pessoas que queria e, por isso, queria ficar muitos anos.
Depois, acabei por ter de sair, mas queria voltar e quando isso aconteceu o meu sentimento foi: quero ficar aqui até acabar a minha carreira. Não vai acontecer, porque vou continuar a jogar, mas sempre acreditei que podia ficar aqui muitos anos e, felizmente, consegui.

Quando volta, ajuda a conquistar de imediato a Taça Continental (2021), mas acredito que seja a WSE Champions League vencida mais tarde, em 2023/2024, que guarde de maneira mais especial. Para lá do troféu, faz uma exibição individual memorável na meia-final.
No ano anterior [2022/2023] não conseguimos ganhar qualquer título, embora o plantel fosse o mesmo. Por isso, no seguinte, tínhamos uma vontade enorme de ganhar, precisávamos de ganhar, estávamos sedentos. Ganhar a Champions na minha cidade natal, num sítio mítico [Pavilhão Rosa Mota]... A meia-final, claro, vai ficar guardada na minha memória pelos dois golos e pela exibição em si. Foi muito marcante. Nós já sentíamos que merecíamos ganhar. Tínhamos tido um ano de mudança, um novo treinador, o Alejandro [Domínguez], o processo era todo novo, nós gostávamos e fomos a duas finais, mas não ganhámos. Ganhar essa Champions fez voltar o “afinal, nós somos capazes”. Foi um título muito especial para mim.

“[Champions 2023/2024] Tínhamos uma vontade enorme de ganhar, precisávamos de ganhar, estávamos sedentos”

 

Os títulos têm o seu peso inevitável, mas há certamente outras coisas que ficam. Quais são os primeiros momentos de que primeiro se lembra neste momento de despedida?
São tantos! Acho que é o balneário, algo que sempre cultivámos muito. Mais do que companheiros de equipa, sempre criámos boas amizades. Os títulos são a cereja no topo do bolo, mas criar tantas ligações, tão boas e fortes... As brincadeiras de balneário, muitas delas que não se podem contar aqui, outras sim, mas dariam para escrever um livro (risos). Tudo isso são coisas que nunca vou esquecer na minha vida. Nem falo só de jogadores, mas também de staff. É um espírito que espero que não se perca, porque isso ajuda muito a ganhar títulos. Que todos se sintam parte integrante, que cada um possa ser quem é, são coisas muito importantes num grupo. Vou guardar essas memórias para sempre.

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O Pavilhão João Rocha foi, então, a melhor casa para ter durante todos estes anos? O Henrique até foi um dos privilegiados que pôde estreá-lo, em 2017.
No plantel tivemos jogadores que estiveram sempre com a 'casa às costas' para trás e para a frente, algo que eu não vivi, mas fui ouvindo. Depois, quando chegámos aqui... Para mim, este é o pavilhão mais bonito do país, o mais imponente, na minha opinião. Poder estar aqui, desfrutar disto todos os dias, às vezes parece algo normal, mas especialmente nesta fase de despedida é um privilégio enorme. Todo o carinho e o calor humano que sentimos nas conquistas e nos jogos também são coisas que ficam para sempre no nosso coração.

“Mais do que companheiros de equipa, sempre criámos boas amizades”

 

Viveu grandes ambientes aqui, acredito que tenha sido acarinhado várias vezes também nas imediações e não só, por isso que última mensagem gostaria de deixar aos adeptos que o acompanharam ao longo de todos estes anos?
A mensagem é de agradecimento. Estava a arrumar as minhas últimas coisas do balneário e encontrei um cartaz pequenino que me foi dado por umas miúdas que estão sempre na bancada central. Diz algo como "um beijinho da vossa melhor claque" e assinaram todas, além de ter fotografias minhas com os três títulos deste ano. Isto vai comigo para casa, pensei, e guardei logo no saco. São também essas coisas que te fazem sentir bem, que marcaste o coração das pessoas, por isso a minha mensagem é de agradecimento. Estiveram connosco, foram para todo o lado e a isso temos de dar muito valor. Muito obrigado por tudo, não só nos jogos mas no dia-a-dia e pelo reconhecimento que me deram. Não há palavras que o justifiquem.

Pelo tempo que aqui passou, o Henrique viveu o Clube por dentro como poucos na modalidade, por isso, o que acredita que o Sporting CP tem de especial ou de diferenciador?
Aquilo que eu sinto é que o Sporting CP abraça o jogador. Todos se sentem em casa e podem ser eles mesmos, seja com as pessoas do dia-a-dia ou os adeptos. Se calhar por isso é que os jogadores gostam de estar aqui. Acho que não há uma coisa em específico, é o ambiente que se cria aqui, no pavilhão. Não sei, é uma química e acho que é muito por aí.

O que acha que leva do Sporting CP e, por outro lado, o que deixa aqui?
[Pausa] Eu acho que deixo a minha personalidade, ou seja, tenho pessoas a dizerem-me que gostaram de estar comigo e da minha maneira de ser. Acho que sou respeitador, e gosto de entender o outro mesmo quando não concordo. Isso faz parte de estar num clube tão grande, porque quando o propósito é ganhar tens de saber que nem tudo vai de encontro a ti. Tens de saber ceder nalgumas coisas, também, porque o importante é o grupo e o Sporting CP ganharem. Acho que deixo essa mentalidade nas pessoas que trabalharam comigo.
O Sporting CP, em mim, deixa muitas memórias. Como disse, foram os melhores anos da minha carreira, muitos títulos e, mais do que isso, é o dia-a-dia e as ligações que fazemos. Também foi aqui o crescimento dos meus filhos, que gostaram muito de estar cá e agora vamos para uma etapa diferente. Fica tudo isso.

“O Sporting CP abraça o jogador”

 

Ao mesmo tempo, ficou algo por fazer?
É assim, acho que não, mas talvez a questão do Campeonato... É aquele amargo de boca que fica. Embora tenha ganho um, acho que podíamos ter ganho mais algum e não fomos capazes. É o que fica por fazer, mas foi tanta coisa bem feita que não podia ser tudo perfeito. Isso não existe. Estou muito contente pelo meu percurso aqui.

A sua filha, imagino, já tem umas noções mais claras sobre aquilo que o pai tem feito no hóquei, mas relativamente ao seu filho mais novo, quando ele quiser saber coisas sobre a sua carreira, como é que lhe vai falar deste capítulo no Sporting CP?
Vou-lhe contar muita coisa. Eu já lhe dei um stick para a mão e ele adora, parte a casa toda (risos). Quando ele crescer, vou-lhe dizer que o pai jogou aqui, foi muito feliz aqui, ganhou muita coisa e que foi aqui que ele teve os seus primeiros dois anos de vida.
Sem dúvida de que vou querer trazê-lo aqui ao Pavilhão João Rocha para ver jogos, eu virei de certeza absoluta e quero trazê-lo para que experiencie o espírito deste clube. Se puder, levá-lo também ao balneário, espero que ainda estejam aqui alguns jogadores de agora. Para que possa perceber aquilo que vivi aqui, e vou transmitir tudo isso ao Lourenço.

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Mesmo sendo alguém que não gosta de estar sob os holofotes, como gostaria de ser recordado pelos Sportinguistas?
Não sei, é uma pergunta difícil, mas sobretudo como alguém que deu tudo pelo Sporting CP. Alguém que sem ser muito vistoso queria chegar ao fim e ganhar.

Fechamos com outra frase sua, esta após a entrega ao Museu Sporting do Mundial de Clubes: "É nestes momentos que vemos, nós, jogadores, que somos pequeninos comparados com esta grande instituição (…) No fim, conseguir fazer parte deste grande Museu é uma honra enorme". Por tudo aquilo que ajudou a deixar no Museu, acredita que sai um pouco mais do que pequenino?
(Risos) Aqui, tenho a sensação de que consegui coisas muito importantes, mas se agora voltasse outra vez ao Museu, olhava e diria outra vez que são praticamente uma página, apenas. Mas só o facto de ter um cantinho dessa página no Sporting CP já é um orgulho enorme. É um clube muito grande, faz-nos sentir isso desde o início e fazer parte dessa História é um orgulho enorme. Continuo a dizer que somos uma parte pequenina, mas estou muito orgulhoso dela.

OS NÚMEROS DE HENRIQUE MAGALHÃES NO SPORTING CP:
7
temporadas
304 jogos
76 golos
1 Mundial de Clubes (2025/2026)
2 WSE Champions League (2018/2019 e 2023/2024)
1 Taça Continental (2021)
1 Campeonato Nacional (2017/2018)
2 Taças de Portugal (2024/2025 e 2025/2026)
1 Supertaça (2025)