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Foto João Pedro Morais, Isabel Silva

"Não iria sair satisfeito sem ganhar alguma coisa e ganhar três títulos é incrível"

Por Sporting CP
27 Jun, 2026

Henrique Magalhães despede-se do Sporting CP pela ‘porta grande’ e de palmarés recheado

Chega ao fim a história de Henrique Magalhães no hóquei em patins do Sporting CP, escrita em dois actos (2017/2018-2018/2019 e 2021/2022-2025/2026) e com um desenlace histórico. O defesa/médio de 34 anos chegou aos Leões para devolver a modalidade à ribalta e aos títulos de outrora, cumpriu a missão e, quase uma década depois, despede-se com mais três (Mundial de Clubes, Supertaça e Taça de Portugal), todos vencidos na sua derradeira temporada de verde e branco.

Nesta primeira parte (de duas) da entrevista concedida aos meios de comunicação do Clube, Henrique Magalhães aborda como viveu tudo em 2025/20206 com o adeus à porta: desde tocar o céu na Argentina até à inevitável mágoa pelo Campeonato Nacional que voltou a escapar, sem esquecer também o seu papel como voz de comando de um balneário renovado. “Os jogadores novos terem podido demonstrar que eram grandes jogadores de uma maneira natural para mim é sair pela 'porta grande', também”, acrescentou.

E o camisola 88, que se descreve, sobretudo, como “um jogador de equipa”, fala como joga: ponderado, lúcido e uma certa dose de altruísmo. É também assim que se despede em plena pista do Pavilhão João Rocha, racional acima de tudo, mas sem esconder as emoções pelo que viveu aqui. “Os melhores anos da minha carreira, sem dúvida”, garantiu.

Começamos com uma frase sua: “Aqui estão os melhores anos da minha carreira”. Disse isto na sua última renovação, ainda antes de 2025/2026 ter sequer começado. Agora, com mais três títulos conquistados, leva essa convicção mais reforçada na despedida?
Não podia deixar de ser. Já era e agora, depois deste ano com três títulos incríveis, obviamente é um sentimento que sai mais reforçado ainda. Disse isso por causa dos títulos, mas também pelo dia-a-dia, aquilo que o Clube me proporcionou, a quantidade de pessoas que conheci aqui e por tudo o que desfrutei. Tudo isso faz com que sejam os melhores anos da minha carreira, sem dúvida.

“Todos estes anos que vivi aqui foram muito bons”

Já se despediu uma vez do Sporting CP, em 2019, depois de duas épocas de sucesso. Agora foram mais cinco. É mais difícil dizer adeus desta vez?
É sempre difícil. Por exemplo, vou partilhar aqui um momento: no início do último jogo, na Luz, custou-me muito. Muito mesmo. Entrei e estava emocionado. Depois, começou o jogo e, obviamente, tudo se desvanece. No final - e partilhei isto com todo o balneário - o meu sentimento era de alegria, porque o dever foi cumprido e sentia uma alegria enorme por ter feito parte da História do hóquei do Sporting CP e por ter partilhado tantos anos bons. Levei tudo para a parte mais positiva do que negativa. No início do jogo senti mais negativamente que podia ser o último jogo, mas quando acaba a minha reacção é exactamente oposta. Realmente, todos estes anos que vivi aqui foram muito bons. Guardo isso, mais do que o facto de me despedir, porque era uma inevitabilidade.

Preparou-se muito para o momento da despedida ou acaba por lidar com isso de maneira natural?
Eu sabia que isto, mais tarde ou mais cedo, iria acontecer, mas sempre reagi de forma natural. Sou um bocado assim: é o que é e as coisas são como são. Há que aceitar e, acima de tudo, dar o nosso melhor em cada momento. Não tive nenhuma preparação especial para isso, fui vivendo as coisas e pronto, umas vezes mais emocionado, outras menos. Foi tudo muito natural.

“Irei sentir alguma melancolia de não poder usufruir desse dia-a-dia, mas prefiro ficar com o facto de ter vivido tudo isso. Estive e isso já é mais do que suficiente para mim”

Já realçou o valor que dá ao dia-a-dia. É, se calhar, disso que vai sentir mais falta?
É, acho que sim. Eu não sou de Lisboa, sou do Porto e fiquei encantado com Lisboa. Gosto... Aliás, gostei muito de viver aqui e é uma cidade que levo no coração, juntando a isso o facto de ter gostado tanto de estar neste clube, tendo conseguido viver aquilo que as pessoas sentem por ele e que me incutiram. Com o tempo irei sentir alguma melancolia de não poder usufruir desse dia-a-dia, mas, mais uma vez, prefiro ficar com o facto de ter vivido tudo isso. Estive e isso já é mais do que suficiente para mim.

Cumpriu, no total, sete épocas e conquistou oito títulos. Embora com um perfil sempre mais discreto, foi um dos rostos constantes nas equipas de hóquei do Sporting CP. Globalmente, como diria que sai desta sua bem-sucedida história a verde e branco?
Foram muitos anos. Acho que sou um dos jogadores que fez parte da História recente do Sporting CP, passei por vários plantéis e acho que nenhum companheiro de equipa vai dizer mal de mim. Isso, para mim, é mais do que suficiente, porque tentei ser sempre o melhor colega possível. Sou um jogador de equipa e sempre fiz tudo para que ganhássemos, fui sempre assim. Sei que não sou o jogador mais vistoso do mundo, posso passar despercebido, mas acho que quem está dentro do plantel não sente isso. Acho que marquei no coração as pessoas com quem passei muitos momentos.

“Sou um jogador de equipa e sempre fiz tudo para que ganhássemos”

No cinema acredita-se que, normalmente, a sequela nunca é tão boa como o primeiro filme. No seu caso, a primeira passagem no Clube foi mais rápida e muito marcante, mas pode-se dizer que a segunda também não lhe ficou nada atrás?
Quando vim pela primeira vez, do HC Liceo, tinha 25 anos e, agora, saio com 34, ou seja, com uma maturidade diferente. São momentos da vida completamente diferentes. Embora tenha estado apenas dois anos na minha primeira passagem, foram super intensos, porque no fundo foi a primeira vez, a nível sénior, que cheguei a um clube em que éramos obrigados a ganhar títulos, embora até tenha sido campeão na AD Valongo. Isso, em termos mentais, para quem chega é algo muito intenso e conseguir ganhar um Campeonato e uma Liga dos Campeões foi incrível. No fundo, foi aquela sensação de "somos realmente bons".
Depois, para a segunda passagem, já venho com uma maneira de estar diferente e já não sou um dos 'caçulas' da equipa. São momentos diferentes, mas muito prazerosos.

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Vamos, então, começar por debruçar-nos sobre esta sua época de despedida. Com um grupo novo em boa parte venceram três títulos numa só temporada, algo que não acontecia desde 1976/1977 e que no hóquei português actual é muito difícil. Acredita que sai pela ‘porta grande’?
Acho que iria sair sempre pela 'porta grande', independentemente dos títulos, mas claro que os troféus reforçam isso. Não iria sair satisfeito sem ganhar alguma coisa e ganhar três é incrível. Embora soubéssemos no início do ano que era possível, a verdade é que a equipa tinha cinco jogadores novos. Um novo ciclo, digamos assim. E quando algo novo começa, embora a qualidade estivesse cá, nunca sabes como é que as coisas vão acontecer. Por isso, acho que fez parte do meu papel e do 'Nolo' integrar, o mais rápido e da melhor maneira possível, os novos elementos. Os títulos são aquilo que fica para as pessoas e para mim também, claro, mas volto a dizer que o dia-a-dia é a coisa a que dei mais valor. O facto de os jogadores novos terem podido demonstrar que eram grandes jogadores de uma maneira natural para mim é sair pela 'porta grande', também.

“Se houvesse algo a apontar, era exactamente não ter ganho tantos Campeonatos como desejava”

Pessoalmente, pela proximidade do fim, sente que esta em particular foi uma época para saborear, isto é, tentou desfrutar um pouco mais de cada momento?
Todas as épocas têm a sua marca e, nesta, a única diferença foi saber que seria a minha última. Quando sabes isso, queiras ou não, no teu íntimo queres desfrutar ao máximo, mas sinto que não mudei nada em relação à pessoa que sou. Foi algo mais interior: ok, vou aproveitar tudo o que puder, porque vai ser a minha última época aqui. Era o melhor que podia fazer.

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E, depois de terem regressado à disputa da final, fica alguma mágoa por não ter conseguido voltar a sagrar-se Campeão?
Sim, acho que sim. É daquelas coisas, nem tudo é perfeito. Ganhei um aqui no Sporting CP, acho que foi o que menos [vezes] consegui ganhar e isso deixa uma marca, pessoalmente. Mas, mais uma vez, prefiro olhar para tudo o resto, porque não há coisas perfeitas. Se houvesse algo a apontar, era exactamente não ter ganho tantos Campeonatos como desejava.

“[Mundial de Clubes] Foi especial, também, por ser o primeiro deste plantel. Fez-nos acreditar mais e deu-nos confiança”

Mas conquistas, sejam nacionais ou internacionais, nunca faltaram no seu percurso no Sporting CP, aliás só viveu uma temporada ‘em branco’ (2022/2023). Aos três vencidos esta época, juntam-se em anos anteriores - desta segunda passagem no Clube - uma Taça Continental, uma WSE Champions League (a sua segunda) e a primeira Taça de Portugal. De todos estes troféus, qual considera o mais especial?
É difícil, bastante difícil... Mas diria o Mundial de Clubes, pelo troféu que é, por ser na Argentina e foi especial, também, por ser o primeiro deste plantel. Fez-nos acreditar mais e deu-nos confiança. Tendo de escolher um, diria o Mundial de Clubes. Também pelo percurso, porque perdemos com o FC Barcelona na fase de grupos [1-3], tivemos uma meia-final muito difícil com o OC Barcelos [3-1], em que até acho que foi superior a nós, mas conseguimos ganhar. O importante é ter a mentalidade vencedora e acho que nesse jogo tivemo-la.
Já na final, o ganhar ao FC Barcelona [3-2 a.p.] - e aí acho que fomos superiores - foi um sentimento de “estamos aqui para ganhar”. E essa confiança levou a que conseguíssemos vencer os outros títulos.

Considera que esses troféus conseguidos nesta época servem de aval para o rumo que o projecto actual do hóquei do Clube está a trilhar?
Este foi um ano de mudança. Além disso, a profissionalização do hóquei do Sporting CP foi muito grande. Houve coisas muito boas que se trouxeram e que nos ajudaram muito a ganhar estes títulos. Para mim, acima de tudo, manter esta 'chama' e espírito de equipa que o hóquei sempre teve, aliando o profissionalismo crescente no Clube, vão fazer com que o Sporting CP continue a ganhar. Não tenho a mínima dúvida. 

Na segunda parte da entrevista, disponível aqui, Henrique Magalhães faz uma retrospectiva mais ampla de tudo o que viveu, aprendeu, ganhou e, agora, leva consigo após sete temporadas com o Pavilhão João Rocha como sua casa. Dos primeiros momentos e títulos de Leão ao peito até ao adeus final ao Clube e aos seus adeptos.