Tiago Barth: "Tornei-me adepto do Clube"
23 Jun, 2026
Bicampeão Nacional de voleibol de saída do Sporting CP
Cinco temporadas de Leão ao peito, com duas Ligas, duas Taças de Portugal, duas Supertaças e uma Taça Ibérica marcaram o contributo de Tiago Barth no voleibol do Sporting Clube de Portugal.
Na ligação ao Clube fica um grande ponto de exclamação pela admiração, carinho, respeito e amor ao emblema de Alvalade, pelo qual se apaixonou. Em entrevista aos meios de comunicação Sportinguistas, garantiu que vai agora torcer à distância pelos êxitos Leoninos e acredita que muitos mais sucessos estarão para vir.
Sai com o sonho cumprido de ser Campeão Nacional no Pavilhão João Rocha e leva no coração tanto os Sócios e adeptos pelo apoio que sempre sentiu como o voleibol Leonino, num clube que considera ter espírito de uma família. Uma entrevista emocionante de um Leão para sempre.

Que balanço faz das cinco temporadas de Leão ao peito?
Foram cinco épocas de muito trabalho, de muita aprendizagem. Os primeiros anos foram um pouco mais difíceis pelo projecto em si, ainda estávamos num período de construção, a equipa estava a ser formada, vínhamos de uma época em que o voleibol tinha tido um interregno no Clube. Fiquei feliz de poder participar na construção, conseguimos reavivar essa paixão no Clube pela modalidade. Senti muito isso no Pavilhão nesses anos, fui vendo cada vez mais os adeptos a comparecerem, cada vez mais os adeptos a apoiarem-nos. Acho que isso foi muito importante, até para o Sporting CP em si.
Foi uma passagem de crescimento e o projecto do voleibol do Sporting CP ganhar cada vez mais forma com o tempo?
Com certeza. Foi um projecto que foi crescendo, não só com os atletas, mas também com todo o staff, tudo o que engloba a modalidade, a directoria, todos perceberem o potencial que a modalidade poderia ter no Clube, que é um clube acostumado a vencer, que almeja sempre estar sempre a vencer. Senti muito isso no começo, em que via as outras modalidades a conquistarem títulos, Campeonatos e naquele momento, infelizmente, nós não estávamos a conseguir isso. Esse foi um momento de frustração como atleta, por naquele momento não estarmos a contribuir com conquistas para o Clube, mas com o passar do tempo, com o projecto a crescer, a amadurecer, outros atletas vieram, outras pessoas no staff, para poder contribuir e poder agora olhar para trás e ver esse crescimento, essas conquistas, para sair com a sensação de dever cumprido.
O que mudou para a dinâmica vitoriosa que agora se registo no voleibol, nomeadamente nas duas últimas temporadas?
Acho que o que contribuiu muito foi aprender com os erros. O Clube, a administração da modalidade acho que conseguiu perceber bem os pontos que precisavam de ser fortalecidos e conseguiu, ao longo das épocas, ir preenchendo essas lacunas que havia. A época passada [2024/2025] foi ainda uma época de construção. Mesmo tendo conquistado três troféus - Supertaça, Taça Ibérica e Liga -, acho que ainda estávamos num processo de construção, mas acho que foi fundamental para que nesta época tivéssemos tido uma temporada quase perfeita.
"Conseguimos reavivar a paixão no Clube pela modalidade"
O Sporting CP foi o clube onde jogou mais temporadas. O que fez do Clube tão especial para o Tiago Barth?
Apaixonei-me pelo Clube. Tornei-me adepto do Clube e desde o momento em que eu cheguei, fui percebendo, fui vendo como era essa magia do Clube. Em mais de 20 anos de carreira, passei por vários clubes e uma coisa em que pensei nestes dias, é que muitos desses clubes onde joguei e tive várias conquistas, hoje-em-dia já não existem mais. Foram clubes que acabaram por falta de incentivos, por falta de algum patrocínio e eu vejo que no Sporting CP é completamente diferente. É um clube centenário que tenho a certeza de que daqui a 100 anos, no Museu, vai estar lá alguém a ver troféus que eu também ajudei a conquistar e sei que por muitos e muitos anos a minha contribuição vai estar lá guardada.
O que mais leva no coração da passagem ao serviço do Sporting CP?
Poder ver o que foi construído aqui, ver essas conquistas. Já tive a oportunidade de algumas vezes no Museu, ver lá troféus de há muitos e muitos anos, troféus de antes de eu ter nascido e saber que muitos atletas que passaram por aqui têm o legado deles lá guardado. Tenho a certeza que o pouco que pude contribuir também vai estar lá para as próximas gerações.
Que momento elegeria como o de viragem para a grande fase que o voleibol do Sporting CP atravessa?
Os primeiros anos foram difíceis. No terceiro ano conseguimos conquistar a Taça de Portugal e foi numa final muito difícil frente à AJ Fonte do Bastardo. Foi uma final que em muitos momentos os dois clubes poderiam ter conquistado, os dois clubes tiveram a chance, o ponto, para ganhar. Lembro que na altura já vinha a frustração de duas épocas a passar em branco, sem ter conquistado qualquer título e quando estive naquela final, vendo aquele momento de dificuldade, pensava: Não, não é possível que três épocas depois estou aqui, tenho a chance de ganhar e não vou deixar escapar. Quando entrava em jogo transmiti isso, de não poder permitir que essa oportunidade escapasse. Quando ganhámos a Taça foi uma sensação de que me consigo recordar bem, foi um momento muito marcante da minha passagem aqui [pelo Sporting CP].

Esse passado recente de antes dessa final da Taça de Portugal encorajou para dar a volta na final dessa competição?
Com certeza, porque nessa hora pensa-se em tudo o que se passou, todo o trabalho que deu para estar ali para aquele jogo e foi uma motivação mais. Foi um jogo desgastante [decidido em cinco sets], tínhamos tido jogo no dia anterior, uma meia-final contra o SL Benfica. Já estávamos um pouco cansados, desgastados, mas acho que essa motivação, essa forme de vencer acaba por sobressair sobre o cansaço e sobre dores. Na hora só se pensa em vencer, esquece-se o cansaço, a dor e no objectivo.
Sentiu nesse momento que também a equipa de voleibol do Sporting CP estava a personificar muito bem os valores do Sporting CP, nomeadamente do Esforço, Dedicação e Devoção para chegarem à Glória?
Foi uma vitória na raça, na garra, de nunca desistir. Acho que isso foi o fundamental, Eles [AJ Fonte do Bastardo] estiveram várias vezes com a bola de jogo, mas a sensação que nós tínhamos era a de que, mesmo tendo eles bolas de jogo, nós não íamos permitir que eles conquistassem a Taça de Portugal. Acho que nós estávamos muito mais focados, aguerridos e muito mais preparados para essa conquista.
"[Ganhar a Taça de Portugal em 2023/2024] foi um momento muito marcante"
Essa conquista mostrou que não havia limites, até pela maneira como na época seguinte o Sporting CP venceu a Liga, na final, depois de estar a perder por 2-0 em jogos frente ao SL Benfica? Houve muito de força anímica?
Com certeza. Todas as dificuldades que passámos acabaram por criar uma resistência nessas horas, porque nós tínhamos passado por muitos momentos probatórios, situações complicadas e havia uma outra equipa [SL Benfica] que estava habituada a vencer, que tinha a vantagem de jogar em casa, a vantagem de dois jogos e acho que no momento do terceiro jogo, em que conseguimos vencer lá, um jogo que acho que na cabeça deles estava ganho, creio que aí foi uma ‘virada chave’ dos dois lados. Do nosso lado mostrámos e vimos que era possível e do lado deles, viram que a partir daquele momento nada ia ser fácil para eles. Acho que toda essa bagagem que tínhamos foi muito decisiva.
Essas conquistas foram, em primeiro lugar, uma resposta a vocês próprios?
Sim, ali o grupo conseguiu mostrar ao que ia, conseguiu mostrar o trabalho feito todo o dia aqui [Pavilhão João Rocha]. O adepto apoia no jogo, mas no dia-a-dia não vê a nossa dor, o nosso sofrimento. O trabalho aqui é sério, visa grandes conquistas, visa honrar esta camisa, orgulhar o Clube e os adeptos que nos apoiam e com essa conquista, poder ver nos olhos dos nossos adeptos com a recepção depois, foi uma sensação muito gratificante.

Ir renovando contrato, tal como Tiago Pereira e Armando Velásquez, por exemplo, foi um sinal importante da estabilidade que o projeto começou a criar?
Quando cheguei, vi noutros atletas que já estavam aqui essa mística, essa paixão pelo Clube, esse respeito pela camisola, algo que não se vê noutros clubes, que não têm esta tradição. Geralmente, não há esse apego pela história do clube, ao contrário daqui [Sporting CP]. Quem passa mais tempo aqui acaba por pegar essa mística, essa paixão, esse respeito por esta camisola, por este Clube e eu reparei isso em todos os jogadores, que quando chegam, quando começam os jogos, a ver os adeptos, começam a perceber a história do Clube quando vão ao Museu, acho que eles conseguem perceber que este não é um clube como qualquer outro. Conseguem perceber que este é um clube com uma grandeza que me orgulha de poder ter representado, que me orgulha de poder ter vestido esta camisola e é um clube que para o resto da minha vida vou ter sempre excelentes lembranças e, onde estiver, vou estar sempre a apoiar.
Representar o Sporting CP foi jogar com amor à camisola?
Com certeza. Tanto que às vezes me perguntavam quando acaba uma época se eu ia continuar ou ia para outro clube e geralmente eu dizia que ia continuar e que no dia em que tivesse de sair, vai ser a minha última época como jogador profissional. E foi o que aconteceu. Chegou o momento. Saio num momento bom, maravilhoso, em que vou ter uma lembrança do meu último jogo, numa final, pois o meu sonho era ser campeão aqui dentro, do Pavilhão João Rocha e eu consegui no último jogo, depois de cinco temporadas, realizar esse sonho. Saio muito feliz, saio realizado. Por um lado triste, porque deixo amigos, deixo essa atmosfera toda de estar aqui dentro, de sentir esta magia, mas agora vou estar na bancada, a ver na televisão, a acompanhar pela internet e hoje sai o jogador, mas permanece o fã, o adepto do Clube.
Na segunda parte da entrevista, que pode ser lida aqui, Tiago Barth falou sobre o final da carreira e voltou a admitir ter-se apaixonado pelo Sporting CP, que já faz parte da sua família.
